Crianças Ativas, Corações Saudáveis, a prevenção começa na infância

Vanessa Santos - Fisiologista do exercício
Publicado no dia 27 de agosto de 2025
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Vivemos um momento crítico em que o sedentarismo infantil se assenta como um dos principais fatores determinantes do risco cardiovascular futuro.
Dados da Organização Mundial da Saúde revelam que mais de 80% das crianças e adolescentes em idade escolar não cumprem os níveis recomendados de atividade física, e estudos europeus apontam que apenas 27 a 33% das crianças atingem os 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa (WHO, 2022). O tempo passado sentado, seja em frente a ecrãs, em aulas estáticas ou em atividades de lazer sedentárias, associa-se a um maior perímetro da cintura, índice de massa corporal elevado e menor aptidão cardiorrespiratória (Ten Velde et al., 2021). Cada minuto de atividade diária conta, pois reduz marcadores de risco cardiovascular, pelo que promover o exercício desde cedo é uma das estratégias mais eficazes de intervenção precoce na saúde pública.
Os benefícios fisiológicos são claros e bem documentados. O exercício regular em idade escolar ajuda a manter níveis saudáveis de colesterol, pressão arterial e glicose, fortalece os ossos e aumenta a capacidade aeróbia, reduzindo de forma significativa o risco de doenças crónicas ao longo da vida (WHO, 2022; CDC, 2023). Existe ainda um efeito comportamental positivo e sustentado, crianças fisicamente ativas têm maior probabilidade de manterem esse estilo de vida na adolescência e idade adulta, consolidando hábitos que protegem o coração por toda a vida (Kubota et al., 2017). Um estilo de vida ativo na infância não é apenas uma medida de prevenção, é um investimento em longevidade saudável.
O impacto do movimento no coração infantil já foi amplamente estudado. Um estudo holandês com mais de 500 crianças de 10 anos demonstrou que cada hora extra de atividade moderada a vigorosa por dia estava associada a uma diminuição significativa do índice de massa corporal (B = –0,45; p = 0,011) e da circunferência da cintura (B = –3,55 cm; p = 0,011), além de um aumento da aptidão cardiorrespiratória (B = 2,53; p < 0,001) (Ten Velde et al., 2021). Este tipo de evidência confirma que a prática regular de exercício melhora, de forma mensurável, os principais determinantes fisiológicos do risco cardiovascular ainda na infância.
Mais recentemente, uma revisão publicada no Sports Medicine Open destacou que atividades vigorosas, como corrida, saltos e jogos ritmados, apresentam efeitos particularmente benéficos. Em crianças entre os 4 e os 9 anos, estas atividades reduziram triglicerídeos, pressão arterial sistólica e diastólica, bem como marcadores metabólicos inflamatórios (Delisle Nyström et al., 2023). Isto reforça que não basta apenas caminhar ou fazer movimentos suaves, atividades mais vigorosas, respeitando sempre as capacidades individuais, são fundamentais para otimizar a saúde cardiovascular.
Os programas comunitários e escolares também têm mostrado impacto expressivo. No Reino Unido, o projeto comunitário JU:MP (Join Us: Move. Play) registou um aumento de mais de 70 minutos semanais de atividade física moderada a vigorosa em crianças, com uma diminuição de 22 minutos diários de sedentarismo ao fim de semana, apenas com a reorganização de horários escolares e incentivo a brincadeiras ativas (Hall et al., 2021). Estes resultados mostram que políticas escolares bem estruturadas podem alterar significativamente os padrões de movimento das crianças, reduzindo fatores de risco de forma populacional.
Os benefícios não se restringem ao corpo. Uma criança ativa apresenta melhoria da memória, da atenção, do humor e um risco reduzido de depressão e ansiedade (CDC, 2023). Para além disso, uma melhor capacidade aeróbia correlaciona-se com maior rapidez de tomada de decisão e melhor desempenho escolar, reforçando o impacto positivo do exercício na aprendizagem e no desenvolvimento cognitivo (Donnelly et al., 2016). Um coração saudável está, muitas vezes, ligado a uma mente saudável e esta relação começa na infância.
Contudo, a realidade não é igual para todas as crianças. Muitas apresentam fatores de risco como obesidade, diabetes tipo 2 ou mesmo cardiopatias congénitas. Nesses casos, a intervenção deve ser personalizada e supervisionada. Estudos em crianças com doença cardíaca congénita mostram que programas de exercício, integrados em reabilitação precoce, melhoram significativamente a aptidão cardiorrespiratória, a variabilidade da frequência cardíaca e a qualidade de vida, sem aumentar o risco de eventos adversos (Anderson et al., 2022). A American Heart Association reforça que a realização de testes de esforço clínico é essencial para personalizar a intensidade e o tipo de exercício, garantindo segurança (Raghuveer et al., 2020). É aqui que os fisiologistas do exercício especializados em reabilitação pediátrica ganham um papel central, pois possuem a formação necessária para adequar protocolos seguros para crianças com condições crónicas.
São estratégias simples, mas eficazes. Limitar o uso de ecrãs, aliado ao exemplo dos adultos, é um fator-chave: crianças cujos pais são ativos têm mais do dobro de probabilidade de se tornarem ativas. Quando escolas, autarquias e pais colaboram, os benefícios são não apenas físicos, mas também sociais e académicos.
No entanto, em Portugal, criar esta cultura exige uma mudança de paradigma. O exercício infantil não pode ser visto apenas como recreação ocasional, precisa ser encarado como uma estratégia de prevenção em saúde pública. É urgente implementar programas estruturados nas escolas, inspirados em modelos internacionais como o JU:MP, com acompanhamento comunitário, formação contínua de professores e monitorização objetiva através de acelerómetria. Esta abordagem integrada, ao devolver movimento ao recreio e ao incluir modalidades de desporto e jogos no currículo, melhora a aptidão cardiorrespiratória, reduz marcadores de risco e promove o bem-estar geral.
A OMS recomenda pelo menos 60 minutos diários de atividade moderada a vigorosa para crianças entre os 5 e 17 anos, incluindo pelo menos três dias semanais com atividades que fortaleçam músculos e ossos (WHO, 2022). Contudo, para que estas metas sejam alcançadas de forma massiva, é necessário que políticas públicas incentivem e financiem programas escolares e não escolares de exercício, com apoio de profissionais qualificados.
Além disso, a narrativa pública sobre o exercício infantil precisa evoluir. Não se trata apenas de brincar ou gastar energia, trata-se de prevenir doenças crónicas, incluindo diabetes, obesidade e/ou doenças cardiovasculares, e formar adultos saudáveis e autónomos. Esta mensagem deve sair dos discursos políticos e ser traduzida em projetos efetivos em escolas, autarquias, conselhos de educação e associações de pais. O investimento na infância é investimento no futuro, menos obesidade juvenil, menos diabetes precoce, menos intervenções cardíacas dispendiosas na vida adulta. A sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde passa, inevitavelmente, por aqui.
Portanto, é urgente mudar, mais atividade livre, menos ecrãs, mais programas comunitários, menos vigilância estática, mais integração entre saúde e educação. Só assim poderemos assegurar que crianças ativas de hoje se tornem adultos com corações saudáveis amanhã.
Referências:
1. World Health Organization (WHO). (2022). Guidelines on physical activity and sedentary behaviour. WHO. https://www.who.int/publications/i/item/9789240015128;
2. Ten Velde, G., Savelberg, H. H. C. M., Chinapaw, M. J. M., & Altenburg, T. M. (2021). Associations between physical activity, sedentary time and cardiovascular risk factors among Dutch children. PLOS ONE, 16(8), e0256448. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0256448;
3. Centers for Disease Control and Prevention (CDC). (2024, 3 de abril). Health benefits of physical activity. CDC. https://www.cdc.gov/physical-activity-basics/health-benefits/index.html;
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6. Donnelly, J. E., Hillman, C. H., Castelli, D., Etnier, J. L., Lee, S., Tomporowski, P., Lambourne, K., & SzaboReed, A. N. (2016). Physical activity, fitness, cognitive function, and academic achievement in children: A systematic review. Medicine & Science in Sports & Exercise, 48(6), 1197–1222. https://doi.org/10.1249/MSS.0000000000000901;
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