Powerpenia: Quando a perda de força rápida se torna urgente para o coração e para a autonomia

vanessa santos

Vanessa Santos - Fisiologista do exercício

Publicado no dia 27 de agosto de 2025

O envelhecimento traz consigo alterações inevitáveis na estrutura e função musculares, afetando diretamente a qualidade de vida e a autonomia das pessoas.

Tradicionalmente, a sarcopenia, perda de massa muscular, tem sido apontada como o principal indicador do declínio muscular relacionado com a idade. Nos últimos anos, o conceito de dynapenia, caracterizada pela perda de força máxima, também recebeu destaque. No entanto, uma nova linha de investigação tem vindo a demonstrar que existe uma componente funcional que declina ainda mais cedo e de forma mais acentuada: a potência muscular, também chamada de força explosiva, ou seja, a capacidade de gerar força rapidamente. Este parâmetro, por muito tempo ignorado, começa agora a ser visto como um dos melhores preditores de autonomia e de saúde global. É neste contexto que surge o conceito de powerpenia, cada vez mais reconhecido na literatura científica e que merece um lugar central nas discussões sobre envelhecimento saudável e como afeta também a saúde cardiovascular.

Powerpenia

De acordo com Freitas et al., (2024), a powerpenia é definida como “a redução da potência muscular, especialmente nos membros inferiores, relacionada com o envelhecimento, doença ou inatividade física”. Esta definição destaca uma diferença crucial: enquanto a sarcopenia foca-se na quantidade de músculo e a dynapenia na força máxima, a powerpenia concentra-se na velocidade e explosividade com que a força é produzida. Isto tem implicações práticas profundas. A força máxima é importante, mas a capacidade de gerar força rapidamente é aquilo que nos permite reagir de imediato a um tropeção, levantar-nos de uma cadeira com agilidade, subir escadas sem hesitação ou correr para evitar um acidente. Quando esta capacidade começa a falhar, as consequências são diretas e imediatas na funcionalidade diária.

O declínio da potência muscular ocorre antes e de forma mais acelerada do que a perda da força máxima (gráfico 1). Isto deve-se principalmente à atrofia precoce das fibras musculares de contração rápida (fibras tipo II), responsáveis por movimentos explosivos. É por isso que muitas pessoas idosas conseguem, por exemplo, levantar um peso moderado de forma controlada, mas têm extrema dificuldade em se levantar rapidamente do chão ou reagir a um desequilíbrio súbito. Estas perdas, aparentemente subtis, aumentam drasticamente o risco de quedas, fraturas e hospitalizações. Cada uma destas situações, por si só, já está associada a um maior risco de mortalidade e de complicações cardiovasculares.

Gráfico 1. Modelo hipotético do início e da taxa de declínio da potência, força e massa musculares com o avanço da idade.
A linha tracejada indica o ponto em que os indivíduos deixam de conseguir executar todas as tarefas que exigem potência ou força.

Adaptado de: Freitas, S.R., Cruz-Montecinos, C., Ratel, S. et al. Powerpenia Should be Considered a Biomarker of Healthy Aging.

Os dados são preocupantes, Freitas et al. (2024) chamam a atenção para o facto de que apenas 0,9% dos 220 estudos publicados entre 2008 e 2023 sobre dynapenia avaliaram diretamente a potência muscular. Esta negligência científica significa que se tem subestimado um dos biomarcadores mais importantes para a saúde funcional e cardiovascular. Estudos recentes têm demonstrado que a potência muscular, medida em testes simples como o sentar e levantar (sit-to-stand power test), é um preditor mais sensível de mortalidade do que a força máxima ou até a velocidade da marcha. Isto reforça a ideia de que a capacidade de produzir força rapidamente é um verdadeiro marcador precoce de saúde global e de longevidade.

A ligação entre a powerpenia e saúde cardiovascular vai muito além da funcionalidade. A redução da potência muscular está associada a alterações neuromusculares e inflamatórias que afetam a regulação autonómica do coração. Estudos recentes demonstraram que valores reduzidos de potência nos membros inferiores se correlacionam com alterações na variabilidade da frequência cardíaca e com marcadores inflamatórios sistémicos, como a razão neutrófilos-linfócitos, que predizem pior prognóstico cardiovascular. Isto significa que um declínio acentuado na potência muscular pode ser um reflexo de alterações sistémicas que ultrapassam o músculo, afetando diretamente a saúde do coração (Hoffmann et al. 2025). Para indivíduos com doenças cardiovasculares, hipertensão ou disfunções autonómicas, esta vulnerabilidade é ainda mais relevante. A incapacidade de reagir rapidamente a estímulos físicos pode aumentar o risco de episódios adversos, desde síncopes até quedas com complicações cardíacas secundárias.

Em termos de intervenção, a powerpenia não pode ser revertida apenas com treino tradicional de força. A perda de potência exige programas específicos que enfatizem a velocidade de execução. Ao contrário dos treinos com cargas elevadas e movimentos lentos, típicos do treino de força máxima, o treino de potência utiliza cargas moderadas (cerca de 40 a 60% da força máxima) realizadas na maior velocidade possível, respeitando sempre a técnica e a segurança. As recomendações mais recentes sugerem até três séries de cinco a oito repetições com movimentos explosivos, integrando exercícios funcionais e pliométricos leves. Clark e Manini (2012) demonstraram que programas que incorporam treino de potência melhoram mais rapidamente a capacidade funcional e reduzem significativamente o risco de quedas quando comparados com treinos tradicionais de força.

Para além dos benefícios funcionais, a inclusão de treino de potência tem implicações diretas na saúde cardiovascular. Em programas de reabilitação cardíaca e pulmonar, a introdução de exercícios de potência nos membros inferiores tem mostrado melhorias significativas na tolerância ao esforço e na resistência funcional. Isto permite aos doentes cardíacos retomar mais rapidamente atividades da vida diária, com menor risco de quedas e menor dependência de terceiros, reduzindo indiretamente o número de hospitalizações e as complicações cardiovasculares associadas. Melhorar a potência muscular em doentes cardíacos representa, portanto, uma abordagem inovadora que vai além do treino aeróbio e de força tradicionalmente incluído nestes programas.

A powerpenia deve, assim, ser encarada como um alerta precoce. É um marcador que nos avisa antes de a força máxima ou a massa muscular declinarem de forma significativa. Identificar e intervir nesta fase pode significar manter a autonomia durante mais tempo, reduzir o risco de quedas e prevenir complicações cardíacas secundárias. Numa sociedade em envelhecimento, em que cada queda evitada e cada batimento cardíaco saudável contam, é imperativo que este conceito seja integrado nos programas de saúde pública, nas avaliações geriátricas e nos programas de reabilitação.

Investir na prevenção da powerpenia é investir na autonomia e na saúde cardiovascular. Cada dia sem quedas, cada minuto ganho na capacidade de reagir rapidamente, cada tarefa diária realizada com independência traduz-se não apenas em qualidade de vida, mas também em menos internamentos, menos custos hospitalares e maior sustentabilidade do sistema de saúde.

Num mundo onde a ciência já demonstrou que o exercício é uma das melhores ferramentas de prevenção, não podemos continuar a olhar apenas para a massa muscular ou para a força bruta. A velocidade do movimento, a capacidade de produzir força rapidamente, é um verdadeiro biomarcador de saúde e longevidade. Identificar e combater a powerpenia deve ser um dos nossos próximos passos na promoção de um envelhecimento ativo e na proteção da saúde do coração.

Referências:

1. Freitas, S.R., Cruz-Montecinos, C., Ratel, S. et al. Powerpenia Should be Considered a Biomarker of Healthy Aging. Sports Med – Open 10, 27 (2024). https://doi.org/10.1186/s40798-024-00689-6;

2. Clark BC, Manini TM. Functional consequences of sarcopenia and dynapenia in the elderly. Curr Opin Clin Nutr Metab Care. 2010 May;13(3):271-6. doi: 10.1097/MCO.0b013e328337819e. PMID: 20154609; PMCID: PMC2895460;

3. Hoffmann, S. W., Schierbauer, J., Zimmermann, P., Voit, T., Grothoff, A., Wachsmuth, N., … Moser, O. (2025). Associations between clinical inflammatory risk markers, body composition, heart rate variability, and accelerometer‑assessed physical activity in university students with overweight and obesity. Sensors, 25(5), 1510. https://doi.org/10.3390/s25051510.

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