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Riscos do exercício físico: Mito ou Realidade

Artigo de Hélder Dores - Cardiologista
00 dez 2023

A prática regular de exercício físico associa-se a múltiplos benefícios para a saúde, nomeadamente a nível cardiovascular. Esta associação está bem identificada e é inquestionável; não há dúvidas! Por isso, fazer exercício físico, seja de que tipo for, é sempre melhor do que não fazer nada. 

Contudo, será que o exercício em excesso poderá ser prejudicial? Esta questão é frequentemente colocada, mas a resposta permanece controversa. De facto, como em tudo na vida, as máximas de “nem 8, nem 80” ou “tudo o que é demais faz mal”, também podem fazer sentido relativamente ao exercício físico. 

Quando se discutem os potenciais riscos do exercício físico, a primeira imagem que surge são os casos de morte súbita em atletas, sobretudo jovens aparentemente saudáveis. Esta situação apesar de alarmante é muito rara, sendo principalmente causada por doenças cardíacas, cuja deteção precoce é essencial. 

Alguns estudos apontam para uma relação típica de “curva em U” entre a dose ou volume de exercício físico e o desenvolvimento de algumas alterações e complicações cardíacas. Isto é, quem não faz exercício regularmente apresenta um risco maior, que diminui com uma prática regular. O benefício do exercício físico é menos marcado quando é realizado com uma dose muito elevada. 

Como exemplo, está documentado que o exercício de elevado volume praticado ao longo de muito tempo poderá aumentar o risco do desenvolvimento de fibrilhação auricular, uma arritmia que tem como principal complicação o acidente vascular cerebral. Neste contexto, os estudos revelam um risco cerca de 5 vezes superior em atletas que praticam exercício com doses muito elevadas comparativamente aos envolvidos em exercício mais moderado. Por outro lado, também nesta doença o exercício moderado é preventivo. Outra associação entre exercício e doença cardiovascular, documentada nos últimos anos em estudos realizados com atletas veteranos, é o aumento da calcificação das artérias coronárias. As causas para este facto são ainda pouco conhecidas, bem como a sua relevância clínica a médio-longo prazo, mas é revelador que alguns mecanismos independentes e específicos do exercício físico, tais como a taquicardia, o stress hemodinâmico pelo aumento do fluxo sanguíneo, a desidratação ou as alterações hidroeletrolíticas, podem estar envolvidos. Adicionalmente, a remodelagem estrutural que o coração apresenta em atletas, consideradas fisiológicas e normais, nos sujeitos a maiores doses de exercício, poderá originar alterações mais marcadas a longo prazo, nomeadamente dilatação das cavidades cardíacas, podendo por exemplo culminar em alterações patológicas, como o desenvolvimento de fibrose miocárdica, que constitui um substrato para o aparecimento de algumas arritmias. Estes dados podem justificar a expressão de que o exercício poderá ser prejudicial. 

Por outro lado, as provas desportivas realizadas em condições extremas, entre as quais se destacam elevadas temperaturas, poderão originar complicações muito graves, incluindo golpe de calor, rabdomiólise e morte súbita, mesmo em atletas com corações normais. Os riscos para a saúde de exercício com estas características, nomeadamente de desportos de endurance de ultradistância, são variados e imprevisíveis. Nestas circunstâncias há condições que não se conseguem treinar nem testar previamente em laboratório, sendo a avaliação médica prévia e o apoio durante e após as provas ainda mais fundamentais. 

Mesmo havendo estes riscos, é inevitável, como é óbvio, muitos atletas estarem expostos a doses muito elevadas de exercício e por vezes realizado nestas condições mais adversas. Por isso, é ainda mais importante que o atleta seja avaliado previamente por um médico com experiência em Medicina Desportiva ou Cardiologia Desportiva. Após o levantamento do histórico pessoal e familiar e uma avaliação física exaustiva, devem ser realizados alguns exames complementares de diagnóstico de acordo com as características e o risco do atleta, nomeadamente a idade. Genericamente, no atleta jovem o eletrocardiograma assume um papel central, enquanto no veterano, análises sanguíneas e prova de esforço são importantes porque a principal causa de morte súbita nesta população é a doença aterosclerótica das artérias coronárias. 

A adoção de estratégias que minimizem o risco de complicações associadas ao exercício físico é fundamental. Além da avaliação pré-competitiva e porque o risco nunca estará ausente, destaca-se que a medida mais eficaz é assegurar um apoio médico de emergência adequado durante as provas e nos recintos desportivos, nomeadamente com capacidade de desfibrilhação pela presença de DAEs e de pessoal com formação e experiência em reanimação. Perante um caso de paragem cardiorrespiratória o tempo é essencial para um prognóstico mais favorável. 

Como deve controlar a intensidade do exercício físico?

Referências:

  1. Pelliccia A, Sharma S, Gati S, et al. ESC Guidelines on Sports Cardiology and exercise in patients with cardiovascular disease. Eur Heart J. 2021; 42(1):17-96. 
  2. Corrado D, Basso C, Pavei A, Michieli P, Schiavon M, Thiene G. Trends in sudden cardiovascular death in young competitive athletes after implementation of a preparticipation screening program. JAMA 2006; 296:1593-601.  
  3. Merghani A, Malhotra A, Sharma S. The U-shaped relationship between exercise and cardiac morbidity. Trend Cardiovasc Med 2016; 26(3):232-40.  
  4. Dores H, de Araújo Gonçalves P, Monge J, et al. Subclinical coronary artery disease in veteran athletes: is a new preparticipation methodology required?. Br J Sports Med 2018; 0:1-6.

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