O SAL REVELADO!

Lígia Mendes - Cardiologista

O QUE É O SAL?

O sal comum utilizado na confeção e processamento dos alimentos é feito de 40% sódio e 60% cloro, sendo que 5 gramas (g) de sal comum (uma colher rasa de chá) corresponde a 2 g de sódio.

QUAL A HISTÓRIA DO SAL NA ALIMENTAÇÃO HUMANA?

Durante 5 milhões de anos, o homem e os seus antecessores só ingeriam o sal que os alimentos continham naturalmente, ou seja cerca de 0,5 g por dia. Foi  só há cerca de 5000 anos, quando se descobriram as propriedades de conservação do sal, que este foi introduzido na alimentação do homem e a sua ingestão aumentou exponencialmente, cerca de 10 a 20 vezes, sendo que no século XIX, na Europa,  a média de ingestão diária chegou a ser 18 g .

COMO SE EXPLICA A NOSSA DEPENDÊNCIA DO SAL?

O consumo regular de sal inibe as nossas papilas gustativas, que detetam o sabor dos alimentos. Por isso, os alimentos desprovidos de sal tornam-se insípidos e sem sabor. E isso faz com que necessitemos de adicionar sal à comida, para que a mesma se mantenha com sabor.

QUAL A FONTE DE SAL NA NOSSA ALIMENTAÇÃO?

A comida processada é responsável por 75% do sal que ingerimos, sendo que o sal que adicionamos à mesa (saladas, etc.) é responsável por cerca de 15-20%. 

No caso, dos produtos processados, a adição de sal ocorre por três motivos principais: 

– Confere sabor; 

– Aumenta o peso dos alimentos embalados (ex.: 2,5% de sal, traduz-se num aumento de 20% do peso de determinado alimento); 

– Aumento da necessidade de ingerir líquidos (consequentemente, aumento do consumo de bebidas); 

Assim, a redução de sal nos alimentos processados traduzir-se-ia por perdas muito significativas nas vendas da indústria alimentar!

QUAL A AÇÃO DO SAL NO NOSSO CORPO?

O sódio é um catião (eletrólito com carga positiva) e tem inúmeras funções no nosso organismo, sendo imprescindível:

  • na contração do músculo esquelético e do cardíaco;
  • na formação e condução do impulsão nervoso; 
  • na manutenção do equilíbrio da água e volume de sangue; 
  • para a hidratação das células e entrada de nutrientes nas mesmas; 
  • na imunidade e combate às doenças.

No entanto, para suprir todas estas necessidades precisamos apenas de pequenas quantidades de sal.

E QUANDO ESTÁ EM EXCESSO O QUE ACONTECE?

O nosso organismo tem de manter a concentração de sódio estável, por isso, e para se adaptar ao excesso de sódio, tem de eliminá-lo pelo rim, pele e intestino, ou simplesmente depositá-lo em locais, nos quais se comporte como uma substância inerte. 

Com a ingestão de grandes quantidades e de forma continuada, estes sistemas de compensação vão entrar em falência e irá levar a múltiplos problemas de saúde:

1. Aumento da pressão arterial, mais grave nos doentes com sensibilidade ao sal, em particular nos doentes idosos e nos diabéticos; o aumento da pressão arterial deve-se ao aumento do volume de sangue, à lesão dos vasos provocada pelo sal acumulado na superfície do endotélio e pela vasoconstrição mediada pela ativação do sistema hormonal e sistema nervoso autónomo. 

2. Doença cardiovascular independentemente do aumento da pressão arterial; por lesão direita das artérias, hipertrofia e fibrose do músculo cardíaco mediados pela ativação hormonal (aldosterona).

3. Doença renal por lesão direta dos pequenos vasos no glomérulo, com diminuição da função de depuração e aumento de proteínas na urina.

4. Osteoporose por desmineralização óssea; o cálcio é arrastado com o sódio durante a sua excreção urinária. 

5. Litíase renal (pedra no rim), devido ao aumento de excreção do cálcio na urina, formando pedras; este fenómeno por sua vez também lesa o rim. 

6. Diminuição da massa muscular, porque para compensar o excesso de sal e mantermos uma concentração equilibrada do mesmo, temos de produzir água através da degradação do músculo. 

7. Pode facilitar o aparecimento da diabetes e obesidade, porque além de diminuir a massa muscular aumenta a insulina resistência. 

8. Promove a inflamação através da inibição da produção de substâncias anti-inflamatórias, como o óxido nítrico.

E QUANDO ESTÁ EM EXCESSO O QUE ACONTECE?
QUAL A EVIDÊNCIA CIENTÍFICA PARA AS RECOMENDAÇÕES DE DIMINUIÇÃO DE INGESTÃO DE SAL?

QUAL A EVIDÊNCIA CIENTÍFICA PARA AS RECOMENDAÇÕES DE DIMINUIÇÃO DE INGESTÃO DE SAL?

Mais de 30 estudos observacionais e cerca de uma dezena de estudos aleatorizados (estudos com maior robustez científica) revelaram que a diminuição de ingestão de sódio em doentes hipertensos ou pré-hipertensos se traduz por diminuição da mortalidade global e não apenas da mortalidade cardiovascular (exemplos concretos são os Estudos TOHP1, TOHP 2 e o recente SSaSS).

QUAIS AS RECOMENDAÇÕES DE QUANTIDADE DE INGESTÃO DE SAL?

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o sal em 2017 foi responsável por 3 milhões de mortes no mundo, sendo um dos TOP três fatores de risco alimentar. Por isso, a OMS recomenda a ingestão diária de sal de 5 g, ou seja, 2 g de sódio, com o objetivo de prevenir doença cardiovascular, que é a principal causa de morte no mundo.

SAL EM PORTUGAL?

Segundo o estudo PHYSA (Portuguese Hypertension and Salt Study), em 2012 os portugueses ingeriam em média 10,7 g de sal por dia, duas vezes mais do que o recomendado pela OMS

Agora que já sabe tudo sobre o sal, pode começar hoje a tentar reduzir o sal na sua alimentação!

Agora que já sabe tudo sobre o sal, pode começar hoje a tentar reduzir o sal na sua alimentação!
Referências:
1. The Global Health Observatory. Salt Intake.World Health Organization;
2. He FJ, et al. Salt Reduction to Prevent Hypertension and Cardiovascular Disease: JACC State-of-the-Art Review.. J Am Coll Cardiol. 2020;75(6):632-647;
3. Robinson AT, et al. The Influence of Dietary Salt Beyond Blood Pressure. Curr Hypertens Rep. 2019;21(6):42;
4. Zhiyi MA, et al. From salt to hypertension, what is missed?. J Clin Hypertens (Greenwich). 2021;23(12):2033-2041.

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