Deixar de fumar: como e porquê?

margarida barata

Margarida Duarte Barata - Pneumologista | Somnologista

Publicado no dia 23 de fevereiro de 2024

O tabagismo, considerado uma doença crónica e uma dependência, é uma das principais causas de morte evitáveis em todo o mundo.

Deixar de fumar

Cerca de dois terços das mortes em fumadores estão diretamente relacionadas com consumo do tabaco e, em média, um fumador vive menos 10 anos do que um não fumador. O tabaco é o único fator de risco comum a quatro das principais de doenças crónicas: cancro, doença respiratória crónica, diabetes e doenças cerebrocardiovasculares.

Estima-se ainda que, em 2019, em Portugal, cerca de 13.500 mortes foram atribuídas ao tabaco.

Benefícios associados à cessação tabágica

Ao deixar de fumar, em…
• 20 minutos: o ritmo cardíaco diminui;
• 12 horas:
o nível de monóxido de carbono no sangue regressa aos valores normais;
• 2 semanas a 3 meses: o risco de ocorrência de enfarte de miocárdio diminui e a função pulmonar aumenta;
• 1 a 9 meses: a ocorrência de tosse e dispneia diminuem;
• 1 ano: o risco de doença cardíaca coronária é metade do de um fumador;
• 5 anos: o risco de acidente vascular cerebral iguala o de um não-fumador;
• 10 anos: o risco de cancro do pulmão é cerca de metade do de um fumador. O risco de cancro da boca, faringe, esófago, bexiga, rim e pâncreas também diminui;
• 15 anos: o risco de doença coronária é igual ao de um não-fumador.

As novas formas de tabaco são prejudiciais?

A combustão do cigarro é a principal forma de lesão causada pelo tabaco. Este processo resulta na emissão de mais de 7000 substâncias, das quais aproximadamente 100 foram classificadas como prejudiciais para a saúde. Atualmente, existem produtos emergentes, como os cigarros eletrónicos e o tabaco aquecido, cujo funcionamento não resulta na combustão do cigarro.

Cigarros eletrónicos:
Dispositivos eletrónicos que disponibilizam a nicotina através da inalação de um vapor produzido após aquecimento do líquido que contêm, gerando um aerossol.
Embora em menor quantidade do que o tabaco convencional, estes dispositivos produzem igualmente substâncias nocivas. Este facto, em conjunto com grande parte dos estudos existentes serem publicados pela indústria do tabaco e com a necessidade de estudos independentes a longo prazo que avaliem os efeitos destes componentes na saúde dos fumadores, constituem argumentos para que não sejam opções na cessação tabágica.

Produtos de tabaco aquecido (“heat-not-burn”):
Dispositivos que contêm um pequeno cigarro com tabaco e, através do aquecimento, produzem nicotina e outras substâncias que são inaladas pelo utilizador.
Têm ainda presentes outros produtos adicionados que não existem no tabaco convencional e que são frequentemente aromatizados. Apesar de a indústria do tabaco afirmar uma redução de 90-95% na quantidade de substâncias nocivas, grande parte dos estudos publicados tem conflitos de interesse evidentes. Alguns estudos independentes encontraram concentrações mais elevadas de outros componentes nocivos em produtos de tabaco aquecido do que em tabaco convencional.

As sociedades científicas portuguesas e europeias têm emitido diversos pareceres a alertarem para a crescente preocupação com estas formas de tabaco.
Estas preocupações prendem-se com o facto de estes produtos conterem nicotina, substância altamente aditiva que existe no tabaco, causando dependência dos seus utilizadores, assim como inexistência de estudos independentes e a longo prazo. Por outro lado, constituem também uma “tentação” para os não fumadores e menores de idade iniciarem os seus hábitos tabágicos.

Como deixar de fumar?

Os fumadores que pretendem deixar de fumar deverão procurar intervenção de apoio intensivo (Consultas de Cessação/Desabituação Tabágica). Trata-se de abordagens ao longo de várias sessões, efetuadas em consulta especificamente programada para o efeito, por profissionais habilitados e treinados. Este tipo de intervenção permite aumentar a taxa de sucesso da cessação tabágica.

parar de fumar
Vários ensaios clínicos demonstraram que a combinação das medidas não-farmacológicas e farmacológicas resultaram em melhores taxas de cessação tabágica.

Pode consultar as instituições do Serviço Nacional de Saúde que têm consultas especializadas aqui, obter apoio através do SNS 24 – 808 24 24 24, ou agendar uma consulta de Cessação Tabágica existente nas diversas unidades privadas.

Tratamentos farmacológicos
Em fumadores que pretendem deixar de fumar, em particular os que têm consumos médios acima de 10 cigarros por dia, a terapêutica farmacológica mostrou aumentar o sucesso da abstinência tabágica. Apesar de alguns destes medicamentos não necessitarem de receita médica obrigatória, é fundamental a discussão com o médico assistente sobre qual a melhor opção terapêutica de acordo com o perfil de consumo de tabaco e comorbilidades. Atualmente, destacam-se como principais opções farmacológicas: terapêutica de substituição nicotínica, bupropriona e citisina.

• Terapêutica de substituição nicotínica:
Consiste na reposição da dose diária de nicotina habitualmente consumida. Existem formas de administração por via oral (pastilhas e comprimidos de chupar, gomas de mascar, películas orodispersíveis, sprays), ou por via transdérmica (adesivos). A posologia, duração de tratamento e combinação de diferentes formas de administração deverá ser orientada pelo médico assistente.

• Bupropriona:
Foi o primeiro fármaco não nicotínico aprovado na cessação tabágica. O modo de ação da bupropiona não é bem conhecido na evicção tabágica. Atua ao inibir a recaptação da noradrenalina e da dopamina, aumentando os níveis extracelulares destas catecolaminas. Este fármaco reduz os sintomas de abstinência e o desejo compulsivo de fumar.

• Citisina:
Liga-se aos recetores nicotínicos neuronais ɑ4β2 da acetilcolina, prevenindo a ligação da nicotina. Bloqueia os efeitos de reforço positivo da nicotina e atenua os efeitos de abstinência e ansiedade.

Dica: se quer deixar de fumar, experimente instalar no seu telemóvel uma aplicação de cessação tabágica, um elemento motivacional extra importante e facilmente acessível. Existem diversas APP disponíveis, incluindo: QuitNow; Smoke Free; Kwit; Flamy; EasyQuit; quitSTART.
Não se esqueça:

• Deixar de fumar é a melhor decisão que uma pessoa fumadora pode tomar para melhorar a sua saúde e a saúde dos que o rodeiam.

• Tentativas anteriores sem sucesso não devem ser um fator de desânimo, mas sim um incentivo para procurar ajuda especializada e tentar novamente.

Será que reduzir o número de cigarros é suficiente?

Referências:

1.
Nunes E. e Gato I. Programa Nacional para a prevenção e controlo do tabagismo. Direção-Geral da Saúde. 2021;
2.
National Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion (US) Office on Smoking and Health. The Health Consequences of Smoking—50 Years of Progress: A Report of the Surgeon General . Atlanta (GA): Centers for Disease Control and Prevention (US); 2014;
3.
West R, et al. Health-care interventions to promote and assist tobacco cessation: a review of efficacy, effectiveness and affordability for use in national guideline development. Addiction. 2015;110(9):1388-403.
4.
Grigg J. Tobacco control and the ERS: new problems and old foes. Eur Respir J 2021; 57: 2003499;
5.
Cerezo J, Paz J, Pardo J. Update on new forms of tobacco use. Clínica e Investigación en Arteriosclerosis 34 (2023) 330—338;
6.
www.sppneumologia.pt/noticias/posicao-das-sociedades-cientificas-portuguesas-em-relacao-a-produtos-de-tabaco-aquecido;
7.
F. Giulietti et al. Pharmacological Approach to Smoking Cessation: An Updated Review for Daily Clinical Practice. High Blood Pressure & Cardiovascular Prevention (2020) 27:349–362.

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