Qual a relação entre exercício físico e saúde cerebral?

Tiago Santos

Tiago Santos - Docente de Desporto

Publicado no dia 20 de fevereiro de 2024

O papel do exercício físico na promoção da saúde cerebral tem sido amplamente debatido e estudado ao longo dos anos. Embora muitos acreditem que o exercício físico é uma forte ferramenta para melhorar a função cognitiva e prevenir o declínio cerebral relacionado com o envelhecimento, as últimas pesquisas revelam uma relação mais complexa e que necessita de clarificação.

Enigma entre exercício físico e cognição

Há décadas que a comunidade científica tem investigado a ligação entre o exercício físico e a saúde cerebral.

exercicio e cognicao

Os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA salientam a importância do exercício físico na “melhoria da saúde cerebral” e a Organização Mundial de Saúde recomenda que adultos pratiquem pelo menos 2 horas de atividade física moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa por semana para melhorar as funções de pensamento e memória. No entanto, uma recente revisão da literatura científica destaca que os estudos que estabelecem a relação entre o exercício e a saúde cerebral podem ter limitações significativas, com amostras pequenas e variáveis não consideradas. Esta revisão aponta para a necessidade de uma análise mais criteriosa sobre o real impacto do exercício físico na cognição, como forma de se perceber melhor o seu impacto.

A ciência por trás do exercício físico e do cérebro

Muitos estudos têm encontrado correlações positivas entre a prática de exercício físico e o desempenho cognitivo. Quando os participantes são questionados sobre os seus níveis de atividade física, os resultados indicam que, em geral, os indivíduos que se exercitam com maior frequência apresentam melhor cognição. Essa relação parece aplicar-se tanto a indivíduos saudáveis quanto àqueles que enfrentam desafios de saúde. No entanto, a quantidade de exercício físico realizada pode desempenhar um papel crucial nesta equação. Um recente ensaio clínico publicado na revista Alzheimer’s Research & Therapy revelou que a melhoria na cognição estava associada principalmente a adultos mais velhos que aumentaram sua atividade física em pelo menos 35%.

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Os processos biológicos envolvidos

São várias as explicações para os efeitos benéficos do exercício no cérebro. Uma das teorias mais estudadas é a ligação entre o exercício e o fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF). Uma proteína que desempenha um papel vital na proteção dos neurónios e no suporte à aprendizagem e memória. A investigação tem mostrado que a prática regular de exercício, como o ciclismo, por exemplo, aumenta os níveis desta proteína (BDNF) no sangue. Essa elevação dos níveis de BDNF está associada a conexões neurais mais fortes e aperfeiçoadas, o que pode explicar, em parte, os benefícios cognitivos observados em pessoas que se exercitam regularmente.

Bicicleta beneficios cognicao

Por outro lado, o exercício pode promover o fornecimento de sangue ao cérebro, conforme evidenciado por uma pesquisa recente que investigou o impacto do exercício aeróbico moderado em adultos mais velhos. O aumento do fluxo sanguíneo pode resultar num incremento do transporte de nutrientes para o cérebro, o que por sua vez, tem o potencial de melhorar a função cognitiva.

O exercício pode, adicionalmente, impactar de forma indireta a cognição. Segundo Daniel Sanabria Lucena, um neurocientista da Universidade de Granada, a prática de exercício físico envolve várias dimensões, entre os quais se incluem a interação social com outras pessoas e a realização de atividades ao ar livre. Fatores que, por si só, têm o potencial de proporcionar benefícios para a função cognitiva.

Dúvidas e controvérsias

Uma das controvérsias encontrada reside na quantidade ideal de exercício para obter benefícios cognitivos. Alguns estudos indicam que é necessário um aumento significativo de exercício físico para observar melhorias cognitivas, enquanto outros sugerem que até mesmo quantidades moderadas de exercício podem ter um impacto positivo.

Recentemente, numa revisão sistemática realizada, onde foram analisadas 24 meta-análises que abrangiam 109 ensaios clínicos randomizados relacionados ao exercício físico e a cognição em pessoas saudáveis, relataram resultados positivos. No entanto, a revisão também identificou várias limitações, incluindo amostras pequenas e discrepâncias nos níveis de exercício físico nos grupos de controlo de diferentes estudos.

Estas limitações têm levado os investigadores a questionarem se a relação entre exercício físico e a cognição é tão definitiva quanto se acreditava anteriormente. deixando espaço para mais perguntas e incertezas.

Conclusão

O exercício e sua relação com a cognição humana continuam a ser um campo de estudo em evolução. Embora muitos acreditem firmemente nos seus benefícios para a saúde cerebral, a investigação mais recente destaca que a realidade é mais complexa do que imaginávamos.

Enquanto a ciência aponta para correlações positivas entre o exercício e a função cerebral, muitas perguntas permanecem sem respostas definitivas.

No entanto, isto não significa que o exercício deva ser desconsiderado ou não seja importante para a nossa saúde física e mental. O exercício físico é uma estratégia importante na prevenção de doenças cardiovasculares e em muitos outros problemas de saúde, assim como uma ferramenta poderosa para um estilo de vida saudável e equilibrado.

Continue a exercitar-se e a desfrutar dos seus variados benefícios!

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