Saiba as novidades sobre o tratamento das doenças do coração

José Ferreira Santos - Cardiologista
Publicado no dia 1 de outubro de 2025
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Hélder Dores - Cardiologista
Publicado no dia 1 de outubro de 2025
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O Congresso Europeu de Cardiologia (ESC) 2025 decorreu em Madrid e é o mais importante congresso científico na área cardiovascular. Trouxe resultados de estudos e atualizações práticas que influenciam decisões do dia a dia: que antiagregante usar após um enfarte, o papel dos novos fármacos GLP-1 na obesidade e insuficiência cardíaca, quem deve manter bloqueadores-beta depois de um enfarte, como reduzir o colesterol de forma mais rápida e sustentada, porque a vacinação continua a ser uma “pílula” de prevenção, como gerir o potássio, tratar a tensão arterial nos mais idosos e a importância de programas estruturados de reabilitação.
Neste artigo, encontra numa linguagem simples os principais resultados.
Nota: nunca ajuste ou interrompa a sua medicação sem falar com o seu médico.
1) Antiagregantes depois de um evento coronário
Contexto: o que sabíamos e as dúvidas
Após um enfarte ou colocação de um stent, é habitual usar dois antiagregantes (aspirina + um segundo comprimido que bloqueia as plaquetas por outra via). Ao fim de algum tempo, muitos doentes passam para apenas um comprimido diário. As dúvidas eram: quando é seguro ficar só com um e qual deve ser esse comprimido a longo prazo.
Estudo 1: NEO-MINDSET — Parar aspirina logo no início?
- Quem participou e o que se testou: 3 410 pessoas com síndrome coronária aguda foram distribuídas em duas estratégias: continuar com dois antiagregantes por 12 meses, ou retirar aspirina logo no início e manter apenas o comprimido mais potente (ticagrelor ou prasugrel).
- Principais resultados: aos 12 meses, o objetivo combinado (morte, enfarte, AVC ou desobstrução urgente) foi 7,0% com 1 comprimido potente e 5,5% com 2; a estratégia de 1 comprimido não provou ser superior. Hemorragia clinicamente relevante: 2,0% vs 4,9% (menos hemorragia com 1 comprimido), mas houve mais trombose do stent (12 vs 4 casos).
- Conclusão: retirar aspirina logo no início não é, em geral, boa ideia: reduz hemorragia, mas aumenta ligeiramente eventos cardíacos importantes.
Estudo 2: TARGET-FIRST — Retirar aspirina após 1 mês em doentes de baixo risco
- Quem participou e o que se testou: 1 942 doentes com enfarte de baixo risco, plenamente revascularizados e sem complicações no primeiro mês com dois antiagregantes, foram randomizados para continuar com 2 comprimidos ou retirar aspirina e manter só o segundo comprimido.
- Principais resultados: o objetivo primário (morte, enfarte, trombose do stent, AVC ou hemorragia maior) foi 2,1% com 1 comprimido e 2,2% com 2 (estratégia de 1 comprimido foi igualmente eficaz). Hemorragia clinicamente relevante: 2,6% vs 5,6% (redução de ~50% com 1 comprimido).
- Conclusão: em doentes cuidadosamente selecionados e estáveis, retirar aspirina ao fim de 1 mês pode manter a proteção e reduzir hemorragia.
Estudo 3: Clopidogrel vs aspirina para prevenção a longo prazo
- O que foi apresentado: meta-análise com dados de quase 29 000 doentes comparou clopidogrel com aspirina como monoterapia de manutenção.
- Resultado principal: clopidogrel reduziu eventos cardiovasculares graves em ~14% relativamente à aspirina, sem aumento de hemorragia; efeito consistente em várias populações.
- Conclusão: para prevenção a longo prazo, clopidogrel pode ser preferível à aspirina em muitos doentes.
Mensagens-chave para os doentes
2) Medicamentos para a obesidade e diabetes (GLP-1) que reduzem o risco de insuficiência cardíaca
Contexto: o que sabíamos e as dúvidas
As injeções dos medicamentos GLP-1 (atuam em hormonas intestinais da saciedade) têm sido usadas no tratamento da diabetes e para perda de peso. Ensaios recentes mostraram que semaglutida e tirzepatida melhoram sintomas, capacidade de esforço e reduzem o peso de doentes com insuficiência cardíaca e fração de ejeção preservada. A questão era: também reduzem hospitalizações e morte?
O que foi apresentado:
Uma análise de estudos do mundo real, com cerca de 97 690 doentes com diabetes e insuficiência cardíaca, comparou semaglutida e tirzepatida com sitagliptina. Os resultados demonstraram uma redução de mais de 40% no risco de internamento por insuficiência cardíaca.
- Em 100 pessoas tratadas durante 1 ano, a semaglutida evitou cerca de 3 internamentos por insuficiência cardíaca ou mortes, quando comparada com a sitagliptina.
- A tirzepatida evitou cerca de 4 em cada 100.
Mensagens-chave para os doentes
3) Bloqueadores-beta depois de um enfarte
Contexto: o que sabíamos e as dúvidas
Durante décadas, os bloqueadores-beta eram prescritos a quase todos os doentes após um enfarte, independentemente da função do coração. Com a revascularização precoce e terapêuticas modernas, surgiu a dúvida: mantê-los faz diferença quando a função cardíaca está preservada?
Estudo REBOOT-CNIC
- Quem participou e o que se testou: mais de 8 000 doentes com enfarte e fração de ejeção >40% foram randomizados para manter vs não iniciar bloqueador-beta a longo prazo.
- Resultados principais: o objetivo primário (morte, novo enfarte ou internamento por insuficiência cardíaca) não foi reduzido com bloqueador-beta (HR ~1,04; sem diferença significativa).
Estudo BETAMI–DANBLOCK
Ensaio escandinavo contemporâneo comparou manter vs não manter bloqueador-beta após enfarte com função preservada, sugerindo possível benefício em alguns subgrupos (ex.: fração de ejeção ligeiramente reduzida).
Conclusão
A evidência é mista. Em muitos doentes com função preservada e sem arritmias, pode não haver benefício claro em manter bloqueadores-beta a longo prazo; noutros, pode haver vantagem.
Mensagens-chave para os doentes
4) Abordagem do colesterol elevado - Nova atualização das guidelines
5) Vacinas contra a gripe: proteção também para o coração
Contexto: o que sabíamos e as dúvidas
A gripe pode desencadear enfartes e insuficiência cardíaca. Sabe-se que a vacinação reduz complicações, mas a dúvida era se a vacina de alta dose traria mais benefícios em pessoas mais velhas.
O que foi apresentado
- DANFLU-2 (Dinamarca, ≥65 anos; n≈332 000): a vacina de alta dose não reduziu significativamente o objetivo primário (internamento por gripe ou pneumonia) face à dose padrão (risco absoluto ~0,68% vs 0,73%; eficácia relativa 5,9%; IC95% −2,1 a 13,4; p=0,14). Observou-se menos internamentos por gripe (≈0,06% vs 0,11%; eficácia relativa 43,6%) e ligeira redução de internamentos cardiorrespiratórios (≈2,25% vs 2,38%; eficácia relativa 5,7%). Segurança semelhante entre grupos.
GALFLU (Galiza, Espanha, 65–79 anos; n≈103 000): a alta dose reduziu o composto de internamento por gripe/pneumonia (0,26% vs 0,34%; eficácia relativa 23,7%; IC95% 6,6 a 37,7) e internamentos por gripe (0,09% vs 0,14%; eficácia relativa 31,8%), com segurança semelhante.
Conclusão
Vacinar-se anualmente continua recomendado. A vacina de alta dose pode trazer vantagem modesta em alguns contextos (menos internamentos por gripe e ligeira redução de eventos cardiorrespiratórios), mas os resultados variam conforme a população estudada e a organização dos sistemas de saúde.
Mensagens-chave para os doentes
- Vacine-se todos os anos. A escolha entre dose padrão e alta dose pode depender da idade, disponibilidade e orientação local.
- A vacinação previne internamentos por gripe e pode reduzir descompensações cardíacas.
6) Potássio e arritmias — manter “alto-normal” em doentes de alto risco
Contexto: o que sabíamos e as dúvidas
Potássio baixo (e mesmo “baixo-normal”) aumenta o risco de arritmias ventriculares. Faltava saber se subir ativamente o potássio para o intervalo alto-normal (4,5–5,0 mmol/L) reduziria eventos em doentes de alto risco.
O que foi apresentado — POTCAST
- Quem participou e como: 1 200 doentes com CDI (alto risco de arritmias) e potássio basal ≤4,3 mmol/L foram randomizados a uma estratégia ativa para atingir potássio 4,5–5,0 mmol/L (com suplementação de potássio, antagonista do recetor mineralocorticoide e aconselhamento dietético) vs cuidados habituais.
- Resultados principais: após mediana de 39,6 meses de seguimento, o objetivo primário (taquicardia ventricular sustentada/terapia apropriada do CDI, internamento não planeado por arritmia ou insuficiência cardíaca, ou morte por qualquer causa) foi inferior na estratégia ativa: 22,7% vs 29,2% (7,3 vs 9,6 eventos/100 pessoa-anos; HR 0,76; IC95% 0,61–0,95; p=0,01). Internamentos por hiper ou hipocaliemia foram semelhantes entre grupos.
Conclusão
Em doentes com CDI e potássio basal ≤4,3 mmol/L, otimizar o potássio para 4,5–5,0 mmol/L reduziu arritmias graves, internamentos cardiovasculares e morte, sem aumento relevante de complicações.
Mensagens-chave para os doentes
7) Tratamento da hipertensão nos idosos frágeis (institucionalizados)
Contexto: o que sabíamos e as dúvidas
Em idosos muito frágeis, com tensão já baixa, pode ser razoável simplificar a medicação, mas era incerta a influência na mortalidade e segurança a longo prazo.
O que foi apresentado — RETREAT-FRAIL (França)
- Quem participou e como: 1 048 residentes de lares, ≥80 anos, com fragilidade, pressão arterial sistólica <130 mmHg e sob mais de um anti-hipertensor foram randomizados a redução progressiva da terapêutica (step-down) vs cuidados habituais, com seguimento até 4 anos.
- Resultados principais: a estratégia step-down reduziu o número de fármacos (média 2,6→1,5) e aumentou a pressão sistólica em ~4 mmHg face aos cuidados habituais; não reduziu a mortalidade por todas as causas (61,7% vs 60,2%; HR ajustado 1,02; IC95% 0,86–1,21); sem diferenças claras em eventos adversos.
Conclusão
Em pessoas muito idosas e frágeis, simplificar anti-hipertensores pode ser razoável para reduzir a carga terapêutica, sem expectativa de reduzir mortalidade; a decisão deve ser personalizada e acompanhada de monitorização da tensão e sintomas.
Mensagens-chave para os doentes
8) Reabilitação após enfarte do miocárdio (foco em idosos)
Contexto: o que sabíamos e as dúvidas
A reabilitação cardíaca melhora a capacidade física e o prognóstico, mas idosos com desempenho físico diminuído estão sub-representados nos estudos e têm baixa adesão a programas padrão. Era necessário comprovar benefícios clínicos com uma intervenção multidomínio adaptada.
O que foi apresentado — PIpELINe
- Quem participou e como: doentes ≥65 anos, com desempenho físico diminuído 1 mês após enfarte (mediana de idade 80 anos), foram randomizados (2:1) para intervenção multidomínio (controlo intensivo de fatores de risco, aconselhamento nutricional e treino de exercício estruturado) vs cuidados habituais.
- Resultados principais (1 ano): redução do composto morte cardiovascular ou internamento cardiovascular não planeado: 12,6% vs 20,6% (HR 0,57; IC95% 0,36–0,89; p=0,01); sem eventos adversos graves atribuídos à intervenção.
Conclusão
A reabilitação estruturada e multidomínio traz benefícios clínicos relevantes mesmo em idades avançadas; deve ser oferecida e adaptada ao desempenho físico e preferências do doente.
Mensagens-chave para os doentes
Em resumo, o Congresso Europeu de Cardiologia 2025 trouxe resultados importantes que podem influenciar o tratamento das doenças do coração nos próximos anos. As decisões sobre medicamentos, vacinas, estilo de vida ou reabilitação devem ser sempre individualizadas e discutidas com o seu médico. O mais importante é manter o seguimento regular, cumprir as recomendações médicas e participar ativamente no cuidado da sua saúde cardiovascular.
Referências:
- Mohebi-Nejad A e Bikdelicorresponding B. Omega-3 Supplements and Cardiovascular Diseases. Tanaffos. 2014;13(1): 6–14;
- Watanabe Y e Tatsuno I. Prevention of Cardiovascular Events with Omega-3 Polyunsaturated Fatty Acids and the Mechanism Involved. J Atheroscler Thromb. 2020;27(3):183-198;
- Bhaat DL, et al. Cardiovascular Risk Reduction with Icosapent Ethyl for Hypertriglyceridemia. N Engl J Med. 2019;380(1):11-22;
- Gaba P, et al. Benefits of icosapent ethyl for enhancing residual cardiovascular risk reduction: A review of key findings from REDUCE-IT. J Clin Lipidol. 2022;16(4):389-402.